Eu podia contar os segundos sem saber poque faço isso. Eu sempre soube poder ser um ativista sem causa. Acreditar por horas lembrar de alguém que eu nem conheço, ou mesmo esperar por dias um desejo desconhecido. Já lutei uma vida inteira por conquistas acabadas e recorrente é acordar todo dia acreditando ser quem eu nunca fui.
Eu vivo num mistério de desencontros. Eu sou segredo sem grandes revelações. Um livro nunca aberto com páginas marcadas, destinado a nunca lerem a versão original. Eu penso o existir todos os dias e recaio na única certeza de não ser nada. As vezes também insisto em enxergar beleza na vida ou relutar ver o que tanto há de errado nela.
A grande questão é não haver tantos altos e baixos assim, é tudo morno. A vida passa por mim e deixa muitas marcas, quanto a mim por exemplo, tenho só a impressão de nada marcar com ela. Surpreendente e não inesperado. Eu tô quase sempre em conflito comigo.
03 dezembro, 2010
caixa de fósforo
Trancado no corredor de uma casa amarela, número 64 de uma rua sem saída, olhava pra frente, estático na porta do corredor. Não passava por aquele portal há anos, não sabia como estava a rua, as casas e nem mesmo seu jardim. Uma dor o fez trancar-se no corredor. Não ia a sala, ficou entre cozinha, quarto e corredor. Tampouco sabia quanto tempo estava nessa rotina, pedera a noção de tempo. Dormiu por dias, achava ter acordado de um coma.
Não sabia o porque estava ali, só sabia que estava lacrado. Se perguntara algumas vezes qual seria aquela cidade. Ele já viajara tanto em sua vida, que não sabia aonde que realmente tinha parado. Parou ali, ali era o nome pra tudo. Morava ali, comia ali, dormia ali, sonhava ali, morreria ali? Estava decidido a tentar sair, sem alarde. Tinha receio do que pudesse estar atrás das portas e janelas que impediam a luz do sol, presenteando-lhe apenas com uma pequena fresta de luz.
Ali, tinha alguns amigos. Ele ocasionalmente conversava com uma cadeira e lembrava de grandes amores que vivera em suas viagens. Era a cadeira a sua grande amiga, sua amante, sua irmã. Certa vez, lembrou-se de uma incrível viagem que fez ao mais extremo norte da europa. Falava que parecia muito Ali, tinha dias escuros e frios. Lá ele conheceu o grande amor da sua vida, mas era proibido. Ele se apaixonara por um garoto. Um menino desses branquinhos e europeus com seus doze ou quinze anos. Ele tinha olhos claros, pele clara, mas cabelos escuros. Tinha sardas. Poucas, mas em quase todo corpo. Se conheceram numa estrada dessas que nos leva a lugar nenhum.
Era dia mas estava escuro ainda, como a maior parte do ano naquela região, igualzinho como Ali. O menino todo agasalhado por conta do frio, trazia uma bolsa e nada mais. Quando se viram, tiveram medo um do outro. Pararam e hesitaram seguir. Mexiam nas bolsas como se procurassem alguma desculpa para voltar em seus caminhos, não queriam correr riscos na estrada que não ia pra lugar nenhum. E não distante para sua surpresa o menino resolveu seguir, mas antes perguntou:
- O senhor tem fósforo?
Ele ficou bobo com a ousadia daquela criança, olhou procurando alguém que não fosse ele, mas logo respondeu:
- Está com frio? O que faz um menino sozinho por essas estradas?
O menino mostrou-se irritado com o interesse do solitário transeunte e ignorando sua curiosidade seguiu. Ignorado e mais uma vez sozinho ele sentiu-se invadindo a história daquele pequeno e amavel garoto, não questionou e ofereceu uma caixa de fósforos.
- Ei, volte aqui. Tenho um presente para lhe dar.
E retornando com toda sua inocência infantil o menino voltou, como se fosse ganhar o que mais sonhara por toda sua vida. Mas era apenas uma caixa de fósforos. Aceitou a caixa do transeunte e quis agradecer. Deu-lhe um beijo, um beijo na boca. Inerte e estático o mundo parou por um segundo naquela estrada de lugar nenhum. O escuro dava margem para coisas proibidas e aquilo lhe pareceu seguramente proibido. Mais uma vez o homem procurou alguém em volta, mas ninguém estava para julgar o beijo infantil.
- Mas o que foi isso? Ele perguntou.
- Um agrado pelo presente. É como melhor posso demonstrar a minha gratidão. Deixo em você uma marca minha.
- É que isso me parece proibido....
- Quem proibi a vida somos nós. Isso foi apenas um agradecimento. Obrigado pela caixa.
E despedindo-se outro beijo estalou na boca dele. Dessa vez foi abraçado, e no frio daquele dia escuro do norte europeu, numa estrada que levava a lugar nenhum, os dois corpos de tempos distintos eram tão próximos que trocaram calor, respiravam suas peles e sem que o garoto pudesse esperar, o tal homem da caixa de fósforo lhe deu outro beijo.
- Mas o que foi isso? Perguntou o menino, esquivando-se dos braços quase paternos.
- Um agrado pelo nosso encontro.
E sem mais nada falar, o homem parou e assistiu o menino virar as costas e ir embora apenas com agasalhos, uma bolsa e aquela caixa de fósforos. O jovem deu alguns passos rápidos como se procurasse fugir do que o homem tinha a lhe dizer. O homem continuava parado. O menino apressou-se, mas parou. Notou algo naquela caixa de fósforo, como se alguma coisa tivesse mudado naquele instante. Voltou-se correndo ao encontro do homem que continuava parado, deu-lhe mais um beijo e falou:
- Isso é porque te amo. Jamais te esquecerei.
E saiu correndo por aquela estrada que não dava em lugar nenhum. E enquanto o homem deixava correr as lágrimas sem notar que a criança sumia na escura noite de um dia no norte europeu.
Bastava escurecer a fresta de sol que ainda entrava na casa amarela, que a cadeira ouvia tudo sem mover uma perna. Ele contava emocionado as histórias que marcaram a sua vida sempre no mesmo horário. Essa do menino do norte europeu ele jamais contara a ninguém, mas nesse dia em especial, chorava como criança, debruçando-se sobre a cadeira. Lembrou-se daquele dia e como queria que o mundo tivesse parado para eles, ali. Conteve suas não discretas lágrimas olhou para o lado, como fazia ocasionalmente procurando alguém, mas não tinha ninguém pra julga-lo. Lembrou-se que existia alguém em algum lugar que o amava. O que ele fazia trancado ali? Foi até a porta e batia desesperado por amar. Queria saber o nome do menino para gritar por ele, mas não sabia e chorava. Correu até um velho armário na cozinha antiga daquele corredor trancado, procurou algo para lhe ajudar a sair. Jogou todas as sobras e restos deixados de lado por todo aquele tempo. Nada, mas apenas uma caixa de fósforos.
Queria falar com a alguém e a cadeira nada dizia, queria sair dali, mas ninguém lhe abria a porta, ninguém lhe procurava. A dor era imensa e a lembrança daquela estrada de lugar nenhum lhe fez querer encontrar alguém, que não estava ali. Ninguém estava ali. Acendeu o primeiro fósforo. Era luz além da pequena fresta de sol que entrava pelas manhãs no corredor lacrado. Queimou o segundo e parecia que não durava o tempo suficiente. Acendeu três de uma vez, rapidamente apagaram. A chama queimava-lhe por dentro, precisava acabar com aquela dor, que aumentava a cada fósforo perdido. Foi então que resolveu dar luz a sua vida e quem sabe um dia, em alguma estrada de lugar nenhum, encontrar alguém.
Não sabia o porque estava ali, só sabia que estava lacrado. Se perguntara algumas vezes qual seria aquela cidade. Ele já viajara tanto em sua vida, que não sabia aonde que realmente tinha parado. Parou ali, ali era o nome pra tudo. Morava ali, comia ali, dormia ali, sonhava ali, morreria ali? Estava decidido a tentar sair, sem alarde. Tinha receio do que pudesse estar atrás das portas e janelas que impediam a luz do sol, presenteando-lhe apenas com uma pequena fresta de luz.
Ali, tinha alguns amigos. Ele ocasionalmente conversava com uma cadeira e lembrava de grandes amores que vivera em suas viagens. Era a cadeira a sua grande amiga, sua amante, sua irmã. Certa vez, lembrou-se de uma incrível viagem que fez ao mais extremo norte da europa. Falava que parecia muito Ali, tinha dias escuros e frios. Lá ele conheceu o grande amor da sua vida, mas era proibido. Ele se apaixonara por um garoto. Um menino desses branquinhos e europeus com seus doze ou quinze anos. Ele tinha olhos claros, pele clara, mas cabelos escuros. Tinha sardas. Poucas, mas em quase todo corpo. Se conheceram numa estrada dessas que nos leva a lugar nenhum.
Era dia mas estava escuro ainda, como a maior parte do ano naquela região, igualzinho como Ali. O menino todo agasalhado por conta do frio, trazia uma bolsa e nada mais. Quando se viram, tiveram medo um do outro. Pararam e hesitaram seguir. Mexiam nas bolsas como se procurassem alguma desculpa para voltar em seus caminhos, não queriam correr riscos na estrada que não ia pra lugar nenhum. E não distante para sua surpresa o menino resolveu seguir, mas antes perguntou:
- O senhor tem fósforo?
Ele ficou bobo com a ousadia daquela criança, olhou procurando alguém que não fosse ele, mas logo respondeu:
- Está com frio? O que faz um menino sozinho por essas estradas?
O menino mostrou-se irritado com o interesse do solitário transeunte e ignorando sua curiosidade seguiu. Ignorado e mais uma vez sozinho ele sentiu-se invadindo a história daquele pequeno e amavel garoto, não questionou e ofereceu uma caixa de fósforos.
- Ei, volte aqui. Tenho um presente para lhe dar.
E retornando com toda sua inocência infantil o menino voltou, como se fosse ganhar o que mais sonhara por toda sua vida. Mas era apenas uma caixa de fósforos. Aceitou a caixa do transeunte e quis agradecer. Deu-lhe um beijo, um beijo na boca. Inerte e estático o mundo parou por um segundo naquela estrada de lugar nenhum. O escuro dava margem para coisas proibidas e aquilo lhe pareceu seguramente proibido. Mais uma vez o homem procurou alguém em volta, mas ninguém estava para julgar o beijo infantil.
- Mas o que foi isso? Ele perguntou.
- Um agrado pelo presente. É como melhor posso demonstrar a minha gratidão. Deixo em você uma marca minha.
- É que isso me parece proibido....
- Quem proibi a vida somos nós. Isso foi apenas um agradecimento. Obrigado pela caixa.
E despedindo-se outro beijo estalou na boca dele. Dessa vez foi abraçado, e no frio daquele dia escuro do norte europeu, numa estrada que levava a lugar nenhum, os dois corpos de tempos distintos eram tão próximos que trocaram calor, respiravam suas peles e sem que o garoto pudesse esperar, o tal homem da caixa de fósforo lhe deu outro beijo.
- Mas o que foi isso? Perguntou o menino, esquivando-se dos braços quase paternos.
- Um agrado pelo nosso encontro.
E sem mais nada falar, o homem parou e assistiu o menino virar as costas e ir embora apenas com agasalhos, uma bolsa e aquela caixa de fósforos. O jovem deu alguns passos rápidos como se procurasse fugir do que o homem tinha a lhe dizer. O homem continuava parado. O menino apressou-se, mas parou. Notou algo naquela caixa de fósforo, como se alguma coisa tivesse mudado naquele instante. Voltou-se correndo ao encontro do homem que continuava parado, deu-lhe mais um beijo e falou:
- Isso é porque te amo. Jamais te esquecerei.
E saiu correndo por aquela estrada que não dava em lugar nenhum. E enquanto o homem deixava correr as lágrimas sem notar que a criança sumia na escura noite de um dia no norte europeu.
Bastava escurecer a fresta de sol que ainda entrava na casa amarela, que a cadeira ouvia tudo sem mover uma perna. Ele contava emocionado as histórias que marcaram a sua vida sempre no mesmo horário. Essa do menino do norte europeu ele jamais contara a ninguém, mas nesse dia em especial, chorava como criança, debruçando-se sobre a cadeira. Lembrou-se daquele dia e como queria que o mundo tivesse parado para eles, ali. Conteve suas não discretas lágrimas olhou para o lado, como fazia ocasionalmente procurando alguém, mas não tinha ninguém pra julga-lo. Lembrou-se que existia alguém em algum lugar que o amava. O que ele fazia trancado ali? Foi até a porta e batia desesperado por amar. Queria saber o nome do menino para gritar por ele, mas não sabia e chorava. Correu até um velho armário na cozinha antiga daquele corredor trancado, procurou algo para lhe ajudar a sair. Jogou todas as sobras e restos deixados de lado por todo aquele tempo. Nada, mas apenas uma caixa de fósforos.
Queria falar com a alguém e a cadeira nada dizia, queria sair dali, mas ninguém lhe abria a porta, ninguém lhe procurava. A dor era imensa e a lembrança daquela estrada de lugar nenhum lhe fez querer encontrar alguém, que não estava ali. Ninguém estava ali. Acendeu o primeiro fósforo. Era luz além da pequena fresta de sol que entrava pelas manhãs no corredor lacrado. Queimou o segundo e parecia que não durava o tempo suficiente. Acendeu três de uma vez, rapidamente apagaram. A chama queimava-lhe por dentro, precisava acabar com aquela dor, que aumentava a cada fósforo perdido. Foi então que resolveu dar luz a sua vida e quem sabe um dia, em alguma estrada de lugar nenhum, encontrar alguém.
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